O delivery deixou de ser um canal de restaurantes e lanchonetes. Supermercados e farmácias adotaram o modelo para vender mais e atender o consumidor onde ele está: 88% da população brasileira já usa serviços de delivery regularmente.
Os números mostram o tamanho da mudança. No varejo alimentar, as vendas digitais ultrapassam R$ 90 bilhões e devem crescer cerca de 16% ao ano. Em São Paulo, 48% dos supermercados já operam com e-commerce, contra 32% em 2023. O canal representa, em média, um incremento de aproximadamente 3% nas vendas dos supermercados, 8% nas farmácias e cerca de 20% do faturamento de restaurantes e lanchonetes.
Crescimento é boa notícia. O problema está no que acontece depois do pedido.
Por que o delivery complica a conciliação
Na venda tradicional com cartão, as divergências costumam se concentrar em poucos eventos: cancelamentos, transações não identificadas, diferenças de taxa. No delivery, a lista de variáveis é bem maior.
O valor final que chega ao caixa do estabelecimento pode ser alterado por cupons promocionais da plataforma ou do próprio varejista, indisponibilidade de produtos, alterações no pedido, cancelamentos parciais ou totais, taxas de serviço, frete e entregas não concluídas. Pagamentos com vouchers e benefícios corporativos entram no mesmo cenário. Cada uma dessas ocorrências modifica o valor da liquidação financeira.
Ou seja: entre o valor da venda registrada e o valor efetivamente liquidado pela adquirente existe um caminho cheio de ajustes. E cada pedido pode passar por vários desses ajustes antes de se transformar em dinheiro na conta.
O risco silencioso para a rentabilidade
O ponto crítico é que essas divergências são pequenas individualmente. Um cupom aqui, uma taxa de serviço ali, um item indisponível acolá. Isoladas, parecem irrelevantes. Acumuladas em milhares de pedidos por mês, corroem parte da rentabilidade que o canal trouxe.
A maioria das empresas registra no ERP aquilo que a adquirente informa: provisão e baixa. O sistema contábil reflete o que foi reportado, não necessariamente o que deveria ter sido liquidado. Sem uma conferência independente, venda a venda, contra o que foi efetivamente pago, essas diferenças passam despercebidas na rotina.
A conciliação estruturada muda esse quadro. Ela cruza as informações das diferentes etapas da operação, identifica inconsistências durante o processo e permite tratar cada divergência antes que ela se acumule. O varejo investiu nos últimos anos para ampliar a presença digital; o próximo passo é garantir inteligência financeira para essa operação.
Conclusão
O delivery veio para ficar e vai continuar crescendo. A pergunta que o financeiro precisa responder não é mais apenas quanto o canal vendeu, mas quanto do que foi vendido chegou de fato ao caixa, e por quê.
Quem confere venda a venda, contra a liquidação real das adquirentes, enxerga cada divergência a tempo de agir. Quem confia apenas no que foi reportado descobre o problema tarde demais.
Fonte dos dados de mercado: Central do Varejo, “Delivery no varejo cresce e aumenta desafio de conciliação financeira”: centraldovarejo.com.br
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